Talvez você já tenha vivido esta cena: você espera o momento certo para conversar, pensa antes no que vai dizer, tenta escolher as palavras para não parecer agressiva e, principalmente, para não transformar tudo em uma discussão.
Então você começa, mas, em poucos minutos, ele se defende. Você tenta explicar melhor. Ele entende outra coisa. Você diz que não queria brigar. Ele responde que você está sempre reclamando. A conversa muda de assunto, a tensão aumenta e, quando você percebe, vocês estão discutindo sobre coisas que nem tinham relação com o que você queria dizer no começo.
Ou acontece o contrário: você percebe que está incomodada, mas prefere ficar quieta. Pensa que talvez não seja tão importante assim. Deixa para falar depois. Depois chega, mas você continua sem falar. Até que aquilo vai se acumulando.
Uma hora é o celular durante o jantar. Outra é a falta de ajuda em casa. Depois vem a sensação de que tudo precisa ser pedido. A falta de atenção. Uma promessa que não foi cumprida. Uma resposta atravessada.
Isoladamente, cada situação parece pequena, mas não é apenas sobre aquela situação. É sobre tudo o que você foi guardando enquanto dizia para si mesma: “Não vale a pena discutir por isso.”, “Depois eu falo.”, “Ele está cansado.”, “Talvez eu esteja exagerando.”, “Se eu falar agora, vai virar briga.”
E, pouco a pouco, você pode começar a sentir que está sozinha dentro de uma relação que deveria ser um lugar de parceria.
É nesse ponto que precisamos falar sobre comunicação, não apenas sobre falar, mas sobre conseguir expressar aquilo que realmente está acontecendo dentro de você sem atacar o outro e sem desaparecer de si mesma.
Comunicação não é simplesmente saber conversar.
Existe uma crença bastante comum de que algumas pessoas simplesmente “sabem se comunicar”, enquanto outras nasceram sem esse talento. Como se uma pessoa tivesse facilidade para conversar sobre sentimentos e conflitos e outra estivesse condenada a explodir, se calar ou fugir das conversas difíceis. Não é tão simples.
Comunicação é uma habilidade e, como toda habilidade, pode ser aprendida e desenvolvida. O problema é que, dentro de um relacionamento, você não está conversando com qualquer pessoa. Você está falando com alguém cuja opinião importa. Alguém que pode te decepcionar. Alguém cuja rejeição pode doer. Alguém que você ama. Por isso, justamente quando mais precisa conversar, talvez seja quando você mais tenha dificuldade de encontrar as palavras.
Você quer ser compreendida, mas tem medo de parecer exigente. Quer colocar um limite, mas tem medo da reação. Quer dizer que alguma coisa está machucando, mas não quer provocar outra discussão e assim começa um ciclo bastante comum:
você sente → pensa muito → segura → acumula → tenta conversar já emocionalmente sobrecarregada → o outro se defende → você se sente ainda menos compreendida.
Depois, os dois concluem que “não conseguem conversar”, mas talvez o problema não seja a falta de amor. Talvez vocês ainda não tenham aprendido a conversar de uma maneira que permita que os dois permaneçam emocionalmente presentes.
O que é comunicação assertiva?
Assertividade é conseguir expressar pensamentos, sentimentos, necessidades e limites de maneira clara, direta e respeitosa. Isso parece simples até você precisar dizer algo difícil para alguém que ama. Porque ser assertiva não significa dizer tudo o que passa pela sua cabeça e também não significa falar de maneira dura, fria ou “colocar o outro no lugar” e muito menos significa ganhar uma discussão.
Assertividade é conseguir dizer: “Isso me incomodou.”, “Eu preciso que isso seja diferente.”, “Eu não concordo.”, “Esse limite é importante para mim.”, “Eu quero conversar sobre isso, mas não quero continuar esta conversa enquanto estivermos nos tratando dessa maneira.”
Perceba a diferença, você não precisa diminuir o que sente para preservar a relação, mas também não precisa ferir o outro para conseguir ser ouvida.
É justamente aí que a assertividade se distancia de dois padrões muito comuns nos relacionamentos: a passividade e a agressividade.
Quando você se cala para evitar conflitos
A pessoa passiva costuma engolir o que sente, isso não porque não tenha opinião. Muitas vezes, ela tem, mas pensa demais nas consequências de expressá-la, então cede, deixa passar, faz sozinha, aceita, perdoa sem ter elaborado o que aconteceu e continua até que, internamente, começa a surgir uma conta emocional. “Eu faço tudo por nós.”, “Eu sempre preciso compreender.”, “Ninguém percebe o quanto eu estou cansada.”, “Eu já falei tantas vezes…”
O problema é que aquilo que não é comunicado não desaparece e pode se transformar em ressentimento, afastamento e frustração. E, depois de muito tempo acumulando, uma situação pequena pode provocar uma reação enorme, não necessariamente porque aquela situação seja tão grave, mas porque ela chegou em um terreno que já estava cheio.
Quando você fala, mas já está em modo de ataque
No outro extremo está a comunicação agressiva, aqui, a necessidade de ser ouvida pode aparecer acompanhada de acusações, ironias, ameaças, gritos ou palavras que machucam: “você nunca faz nada direito.”, “eu tenho que fazer tudo sozinha.”, “você não se importa comigo.”, “é impossível conversar com você.”.
Talvez, por trás dessas frases, exista uma necessidade legítima de cuidado, participação, respeito, presença, mas a forma como essa necessidade chega ao outro pode fazer com que ele escute apenas o ataque e então se defende, contra-ataca, fecha-se ou abandona a conversa. A discussão continua, mas a comunicação desaparece.
Ser assertiva não significa falar mais alto. Significa conseguir se posicionar sem destruir a relação
Existe uma diferença importante aqui, a comunicação assertiva não está no meio dos dois extremos simplesmente porque é uma versão “mais educada” de falar. Ela exige uma escolha consciente, a escolha de se posicionar sem transformar o outro em inimigo.
Você pode estar profundamente magoada e ainda assim dizer o que precisa ser dito, pode discordar sem humilhar, pode colocar um limite sem ameaçar, pode dizer não sem precisar justificar sua existência e pode ainda, ouvir o outro sem, por isso, abrir mão daquilo que é importante para você.
Essa é uma habilidade especialmente importante nos relacionamentos porque intimidade não elimina diferenças. Na verdade, quanto mais próxima é a relação, mais inevitável será encontrar diferenças de expectativas, necessidades, prioridades e formas de enxergar a vida.
O problema não é discordar, o problema é não saber o que fazer quando a discordância aparece.
Por que é tão difícil ser assertiva justamente com quem você ama?
Porque existe algo em jogo. Quando você conversa com uma colega de trabalho, por exemplo, pode ser relativamente simples dizer que determinado comportamento ultrapassou seu limite. Com o parceiro, talvez você pense: “e se ele ficar bravo?”, “e se ele entender que eu não amo mais?”, “e se isso virar outra briga?”, “e se ele disser que eu estou cobrando demais?”, “e se ele simplesmente não mudar?”
Quanto mais importante é o vínculo, maior pode ser o medo de perdê-lo ou de provocar uma ruptura. Além disso, cada pessoa chega ao relacionamento trazendo uma história.
Você aprendeu a conversar sobre problemas observando sua família, seus cuidadores e as relações que teve ao longo da vida, talvez você tenha crescido em uma casa onde ninguém conversava sobre sentimentos, talvez qualquer discordância terminasse em gritos, talvez tenha aprendido que ser uma “boa pessoa” significava não incomodar, talvez tenha aprendido a cuidar de todo mundo antes de pensar em si e talvez hoje você perceba que repete alguns desses padrões no seu relacionamento, mesmo sem querer.
Não porque exista algo errado com você, mas porque aquilo que foi aprendido durante muitos anos tende a aparecer justamente nos momentos em que você está emocionalmente mobilizada.
Quando a falta de comunicação começa a mudar o relacionamento
O desgaste raramente acontece de uma vez, geralmente ele vai chegando aos poucos, primeiro você deixa de falar sobre uma coisa, depois percebe que determinadas conversas sempre terminam mal e começa a evitá-las, depois deixa de contar algumas coisas porque pensa que não adianta, depois começa a resolver tudo sozinha e em algum momento, vocês continuam vivendo na mesma casa, dividindo responsabilidades, fazendo planos e mantendo uma rotina, mas alguma coisa mudou.
Existe menos curiosidade sobre o mundo do outro, menos conversa, menos espontaneidade, menos vontade de compartilhar. Às vezes, até o carinho diminui e pode surgir uma sensação difícil de explicar: “eu não sei exatamente quando nós nos afastamos.”
Esse é um dos perigos da comunicação que vai se deteriorando. O relacionamento não precisa terminar para começar a ficar emocionalmente distante. A distância pode aparecer muito antes.
Quando você guarda tudo, o outro pode nem perceber a dimensão do problema
Esse é um ponto que costuma gerar muita frustração. Você pensa, “mas ele deveria saber.” e eu entendo esse pensamento! Quando você convive diariamente com alguém, é natural desejar que essa pessoa perceba quando alguma coisa está errada, mas existe uma diferença entre ser conhecida pelo parceiro e esperar que ele consiga adivinhar aquilo que você não conseguiu comunicar.
Se você diz “está tudo bem” quando não está, o outro recebe uma informação. Se você responde “não é nada” enquanto espera que ele insista, ele pode interpretar literalmente. Isso não significa que o parceiro não tenha responsabilidade de perceber, perguntar e se interessar, ele tem. Porque relacionamento saudável exige atenção aos sinais do outro, mas também é importante que você consiga transformar aquilo que sente em palavras, pois ninguém consegue construir intimidade emocional apenas com suposições.
Quando toda conversa vira uma disputa
Também existe o outro lado e talvez você já esteja cansada de tentar explicar e sentir que precisa provar que tem razão, então cada conversa começa como uma tentativa de resolver alguma coisa e termina como uma espécie de julgamento: quem fez mais, quem começou, quem errou primeiro, quem sofreu mais, quem tem razão, etc. E, no final, talvez alguém até “vença” a discussão, mas o relacionamento perde, porque o objetivo de uma conversa importante não deveria ser descobrir quem é o culpado e sim ser compreender o que aconteceu e descobrir o que precisa mudar.
Como começar a praticar uma comunicação mais assertiva
Não existe uma frase mágica capaz de resolver todos os conflitos de um casal, mas existem mudanças concretas na maneira de conversar que podem fazer diferença.
1. Fale sobre o que aconteceu, não sobre quem o outro é
Existe uma grande diferença entre dizer: “Você é egoísta.” e dizer: “Quando você tomou essa decisão sem conversar comigo, eu me senti desconsiderada.”
Veja que na primeira frase, você define a identidade do outro, já na segunda, você descreve um comportamento e o impacto que ele teve em você. Isso abre mais espaço para uma conversa.
2. Use a primeira pessoa
Em vez de começar com: “Você nunca me escuta.”, experimente explicar: “Quando eu estou falando e você continua olhando o celular, eu sinto que o que estou dizendo não está recebendo atenção.”
Não é uma questão de escolher palavras bonitas, é uma mudança de posição. Você deixa de acusar o outro por aquilo que ele “é” e passa a comunicar aquilo que você viveu.
3. Escolha o momento
Uma conversa importante às 23h30, depois de um dia exaustivo, provavelmente não será igual à mesma conversa feita em um momento em que os dois estão mais disponíveis. Isso não significa fugir do assunto, significa cuidar das condições necessárias para que ele possa ser realmente discutido.
Você pode dizer: “Eu quero conversar sobre isso com você, mas agora estou muito irritada. Podemos falar depois do jantar?” Isso também é comunicação.
4. Não tente resolver tudo de uma vez
Às vezes você está há meses acumulando coisas e, quando finalmente decide falar, coloca tudo na mesa. O problema é que uma conversa pode não suportar cinco conflitos diferentes ao mesmo tempo.
Então escolha o que é mais importante, converse sobre uma questão, entenda o que aconteceu, combinem o que pode ser diferente e depois, se necessário, retomem os outros assuntos.
5. Ouça para compreender, não apenas para responder
Essa talvez seja uma das partes mais difíceis. Enquanto o parceiro fala, você pode estar preparando mentalmente a sua defesa, “Mas ele fez isso primeiro.”, “Isso não aconteceu desse jeito.”, “Ele está esquecendo o que eu fiz.”
Só que ouvir não significa concordar. Você pode tentar compreender o que o outro está dizendo antes de explicar o seu lado. Uma pergunta simples pode ajudar: “O que você quis dizer quando falou isso?” Às vezes, uma conversa muda completamente quando a pessoa percebe que, pela primeira vez, está sendo realmente escutada.
E quando você já tentou conversar muitas vezes?
Aqui precisamos ser honestos, nem todo problema de relacionamento é simplesmente um problema de comunicação. Às vezes existe ressentimento acumulado, às vezes existem diferenças profundas de expectativas, às vezes existe falta de disposição de um dos parceiros para mudar.
E existem situações em que há desrespeito, violência psicológica, física ou outras formas de abuso. Nesses casos, não seria adequado tratar o problema apenas como uma dificuldade de comunicação entre duas pessoas que precisam “aprender a conversar melhor”. Por isso, antes de pensar em técnicas, é importante compreender o que realmente está acontecendo nessa relação.
Se vocês querem melhorar, mas toda tentativa de conversa termina em briga, silêncio, afastamento ou repetição dos mesmos conflitos, a terapia de casal pode oferecer um espaço estruturado para compreender essa dinâmica e construir novas formas de interação. Não porque exista algo “errado” com vocês, mas porque algumas habilidades relacionais nunca foram ensinadas e aprender depois de adulto não significa fracasso, significa reconhecer que continuar repetindo o mesmo padrão também tem um custo.
Talvez o que esteja faltando entre vocês não seja amor. Talvez seja uma nova forma de conversar.
Se você chegou até aqui pensando em alguma conversa específica que aconteceu entre vocês, talvez valha a pena olhar para ela com um pouco mais de cuidado. Pergunte a si mesma:
- O que eu queria realmente dizer?
- O que eu acabei dizendo?
- O que eu estava sentindo naquele momento?
- O que eu precisava e não consegui pedir?
- Eu me calei para evitar conflito ou ataquei porque já estava cansada de não ser ouvida?
Essas perguntas podem revelar muito, porque, muitas vezes, por trás de uma discussão sobre o celular, dinheiro, tarefas domésticas, família, sexo ou filhos, existe uma necessidade emocional muito mais profunda, de ser considerada, de ser respeitada, de sentir parceria, de sentir segurança e sentir que a sua voz tem lugar dentro da relação.
Comunicar-se melhor não significa aprender a falar de uma maneira perfeita. Significa conseguir permanecer em contato com aquilo que você sente e precisa enquanto também reconhece que existe outra pessoa do outro lado e isso pode ser aprendido.
Se você percebe que as conversas entre vocês estão cada vez mais difíceis, que os mesmos conflitos se repetem ou que você já não sabe mais como falar sem provocar uma nova discussão, buscar ajuda profissional pode ser um passo importante.
Na terapia de casal, o objetivo não é decidir quem está certo. É compreender o que está acontecendo entre vocês e criar condições para que ambos possam se posicionar, ouvir e construir mudanças possíveis.
Eu sou Isis Pessoni, psicóloga e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e com formação específica em Terapia de Casal e Relacionamentos.
Atendo casais presencialmente em Goiânia e também de forma online. Se você sente que existe algo entre vocês que ainda merece ser cuidado, talvez o primeiro passo não seja ter mais uma discussão.