casal buscando um momento de conexão em meio à rotina com os filhos, ilustrando intimidade depois dos filhos

Intimidade depois dos filhos: como recuperar a conexão

Talvez vocês ainda se amem e até funcionem muito bem juntos. As crianças estão cuidadas, a casa segue funcionando, as contas são pagas, a rotina está organizada. Vocês resolvem problemas, dividem tarefas e cuidam da família, mas existe uma pergunta que talvez esteja ficando difícil de responder: quando foi a última vez que vocês se sentiram um casal, e não apenas pai e mãe?

Depois dos filhos, muita coisa muda. O sono, a rotina, o corpo, a disponibilidade, as prioridades. E, no meio de tudo isso, a intimidade costuma ser empurrada para depois.

Depois que a criança dormir. Depois que as coisas se organizarem. Depois que o cansaço passar.

O problema é que esse “depois” pode durar meses. Às vezes, anos e ninguém necessariamente decide se afastar. A distância simplesmente vai acontecendo.

Quando o casal começa a desaparecer dentro da parentalidade

No início, vocês provavelmente ainda encontravam pequenos espaços para conversar, rir, trocar carinho, sair juntos ou simplesmente ficar perto. Depois vieram as mamadeiras, as noites mal dormidas, a escola, o trabalho, as tarefas da casa, os compromissos, e uma conversa que antes começava com “como foi seu dia?” passou a ser:

“Você pegou a criança?”

“Tem reunião amanhã?”

“Quem vai buscar?”

“Pagou aquela conta?”

“Ela está com febre?”

Não há nada de errado nessas conversas, o problema aparece quando elas passam a ser praticamente todas as conversas. A relação continua funcionando, mas a conexão vai ficando sem espaço e existe uma diferença enorme entre viver junto e se sentir próximo.

A intimidade não desaparece de uma hora para outra

Na maioria das vezes, não existe um dia específico em que o casal decide deixar de se tocar. Acontece de forma muito mais silenciosa… Um abraço vira um beijo rápido, o beijo desaparece porque alguém está cansado, o carinho fica para depois, o casal começa a dormir ao mesmo tempo, mas não necessariamente junto emocionalmente, até que os únicos contatos físicos do dia são funcionais.

Pegar as crianças, entregar alguma coisa, dividir uma tarefa, arrumar a roupa…

É quando algumas pessoas começam a pensar:

“Será que meu marido ainda sente desejo por mim?”

Ou:

“Será que minha mulher ainda me vê como homem?”

E, do outro lado, pode existir alguém pensando: “eu amo essa pessoa, mas estou tão cansado que não consigo nem pensar nisso.”

Perceba a diferença, nem sempre existe falta de amor, às vezes, existe excesso de cansaço, sobrecarga e distância acumulada.

E a culpa aparece

Quem sente falta de intimidade pode começar a pensar que está cobrando demais. Quem não consegue corresponder pode sentir culpa. E a culpa não costuma produzir aproximação, muitas vezes, produz esquiva.

Quanto mais uma pessoa cobra, mais a outra se sente pressionada.

Quanto mais pressionada, mais se afasta.

Quanto mais se afasta, mais a primeira cobra.

E aquilo que começou como saudade de carinho pode terminar em ressentimento.

Como saber se vocês estão deixando a intimidade de lado?

Observe se:

• os únicos toques entre vocês são funcionais;

• vocês conversam quase exclusivamente sobre filhos, trabalho, casa e problemas;

• um dos dois deixou de tomar iniciativa por medo de ser rejeitado;

• vocês passam tempo juntos, mas quase nunca estão verdadeiramente presentes;

• existe a sensação de que vocês se tornaram excelentes parceiros na administração da casa, mas não sabem mais como ser parceiros na relação.

Se você se reconheceu aqui, não significa automaticamente que o relacionamento esteja acabando, mas significa que alguma coisa merece atenção.

A intimidade não começa necessariamente pelo sexo

Esse é um ponto que muitos casais esquecem.

Quando existe distância, tentar voltar diretamente para a vida sexual pode aumentar ainda mais a pressão. Às vezes, o caminho começa muito antes, pode ser m abraço que não termina imediatamente, um beijo sem pressa, dez minutos conversando sem falar dos filhos, um toque espontâneo enquanto vocês passam pela cozinha, um olhar que não seja apenas um pedido ou uma cobrança.

Pequenos gestos podem parecer insignificantes, mas eles comunicam uma mensagem poderosa:

“Eu ainda vejo você.”

E, em uma relação que foi tomada pela rotina, voltar a se sentir visto pode ser o começo da reconexão.

Quando é hora de pedir ajuda?

Se a distância já dura muito tempo, se as tentativas de aproximação terminam sempre em cobrança, rejeição ou irritação, ou se o assunto se tornou tão delicado que vocês preferem simplesmente não falar sobre ele, talvez seja hora de olhar para isso com mais cuidado.

A terapia de casal não precisa ser o lugar onde vocês chegam para decidir se vão continuar juntos, ela pode ser justamente o espaço para entender como vocês chegaram até aqui e o que ainda pode ser reconstruído.

Porque, às vezes, o problema não é que o amor acabou, é que o casal ficou escondido debaixo de todas as outras funções que precisou assumir.

E talvez vocês não precisem voltar a ser o casal de antes dos filhos, talvez precisem descobrir como voltar a ser casal nesta nova fase da vida.

Isis Pessoni
Psicóloga | CRP 09/2428



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Isis Pessoni

Psicóloga, especialista em TCC, com formação específica em Terapia de Casal e Relacionamentos.

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